Entry: A propósito do silêncio nas avenidas Friday, September 30, 2011



os troncos das pedras
sob a forma de costelas
e dentro do mar o absinto
preto mal diluído. ainda
gatos velhos a incendiar
o peito com fósforos vazios
na boca.
quando era mais novo
armazenava corações
nas escarpas. deixava-os
corroer o céu da boca
até chegar ao cérebro
e cuspia para dentro
de uma garrafa de plástico
cortada ao meio onde
antes o meu pai guardara
o tecido morto das fotografias
 e a parede do corredor.
pessoas desconhecidas a penetrar
na caixa de ar das casas antigas
com vozes próprias, com pontes
próprias através dos dentes. às vezes
o crânio a explodir cores secas
e uma espécie de sangue
a partir a paleta no tapete.
o senhorio acabado de morrer.
o meu corpo mais pequeno
a dobrar as esquinas
sucessivas das casas,
das camas partidas com
homens pequenos abraçados
a uma almofada vermelha
com vértices de vidro.
os olhos dentro
de um copo de plástico
para diluir as lágrimas
que restam a um corpo
feito de cinzas. a solidão
com arranjos de mármore
a definir o espaço físico
da morte. os retratos
abandonados no chão,
nas ruínas de uma casa
sem gente que saiba chorar,
sem animais que dêem pela
falta de uma cama de hospital
emprestada
para um final feliz. 


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