mortirAugust 24th 1991 (Age 20) Male Óbidos
telefone alimentado a madeira
Assuntos mecânicos concêntricos adormecem as
memórias, confirmam a melancolia.
Encontraram-no fora da voz, louco de
insígnias. Faltam unhas.
Carne mastigada, estilhaços,
janelas sem ângulos, honestas de
sangue...
O propósito obscuro,
conta-nos, vertebral, o útero
das coisas queimadas amolece das
órbitas.
Sopram por dentro
encaixam mortos nos lugares efémeros.
Acreditam, veementes, nos assuntos
imaculados. Velcro nos olhos ovíparos omnívoros.
Sente-se ferrugem antiga
nos lábios cansados de mortes,
sente-se cromatina no périplo.
E eu, afónico, resto de
tudo, hoje, louco, aqui me
espero de ontem, aqui me
torno a flor de lótus.
Clímax. Sou eu.
E eu, adorno, desembarco nas
humidades.
Fértil chão da morte.
27/X/2008
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Arde-me o céu da boca,
o pântano entre os dedos
onde restam pedaços de
ti e de mim quando um
abraço podia fazer sentido
durante a noite; durante a
madrugada. calo-me para
ouvir melhor o corpo
ofegante de tempo mas
o teu abraço já não é sequer
abstracto. acaba um sorriso
no colapso mecânico que
brota entre as costelas.
a vedação está coberta
de sonho, de pombos
com facas no bico e
nenúfares nas patas.
somos animais de luz
a correr depressa demais
contra os olhos para lá da
imaginação possível.
levantamo-nos tarde e
estamos nus mas isso é inconcreto.
apagas-me um cigarro no pescoço
e é o beijo possível,
o corpo inflamado a construir
estruturas aladas no
rosto da impotência.
tenho a dimensão exacta de
uma árvore decepada:
deixo a cabeça cair entre as
tuas pernas e mitifico o silêncio
do fogo enquanto as portadas
encerram a tempestade.
Posted at 06:41 pm by mortir
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está frio lá fora e é principalmente
isso. as calças não me servem e
as pessoas também não.
troco-as com o tempo
a que dou corda num relógio
de madeira que já foi do
meu pai; do meu avô,
ambos mortos de demasiado
chiar mecânico em volta
do crânio. pequenos passos
a subir uma parede de gesso
indicam a fuga das vozes
de dentro de um balde
que flutua
a constante variação
da sombra
numa piscina
com cadáveres no fundo.
Posted at 03:36 pm by mortir
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Os vidros transparentes têm o defeito de ser invisíveis.
intocáveis
Nos que se cobrem de poeira toca-se com as mãos, os dedos, as unhas e pode-se inscrever, reescrever todas as verdades e segredos do mundo.
Posted at 05:02 pm by mortir
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o ventre da poesia estático no tempo, um feto que envelhece dentro do útero enquanto procuramos a fórmula correcta, a forma correcta do poema, da filosofia, da fonologia, da linguagem. os poetas não são os poetas e os homens são mulheres por dentro a chorar e a sonhar com um útero cheio de luz. um deus que nos engravide de palavras intensas, de vontade. tenho vontade de morrer primeiro que tudo, primeiro que tu.
não digas a palavra que falta neste verso, não a procures, não existe, tu não existes mesmo que eu corra o risco de morrer primeiro e viver eternamente.
a poesia sempre inteira no bolso vazio, no estômago, também ele. sim, vazio.
Posted at 02:41 pm by mortir
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Monday, February 20, 2012 |
Podia escrever apenas que as palavras; o poema tem coisas dentro e todos me diriam que sim, ou que as palavras são um poema porque também. talvez por isso, talvez por tantas outras coisas não me fascine ser também poeta. nem mesmo com coisas dentro.
sou as palavras de mim próprio mais que a corrente inexistente dos reconhecidos homens vagos. morrer faz parte de mim sozinho porque também a morte como a vida faz mais sentido se ninguém estiver a ver. a considerar sobre.
escrever para ninguém para sempre.
Posted at 03:36 am by mortir
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Friday, November 11, 2011 |
quero esta corda. este silêncio em que a angústia se enrola no pescoço e me pendura no lugar de um cortinado.
preciso de uma cidade inteira, uma lâmina para dentro do meu peito e, depois, um tumor maligno com que possa conviver para sempre.
preciso de uma cama de madeira fechada com pregos, um armazém vazio com um ringue ao centro e apenas eu contra deus. o eco da solidão a entrar pela caverna de cristo e um gato ferido a morrer aos meus pés. apenas olhos em estilhaços, vidros de uma cidade que decide sucumbir ao vazio. onde quer que estejas plantarás uma flor e enquanto a vires secar supões ter desviado os doces rios que correm dos meus pulsos para dentro da tua boca.
preciso de mim, do que resta dos meus olhos, da vossa boca a arrancar-me os braços para que nunca mais, na ausência, um abraço.
Posted at 09:57 am by mortir
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Friday, September 30, 2011 |
A propósito do silêncio nas avenidas
os troncos das pedras sob a forma de costelas e dentro do mar o absinto preto mal diluído. ainda gatos velhos a incendiar o peito com fósforos vazios na boca. quando era mais novo armazenava corações nas escarpas. deixava-os corroer o céu da boca até chegar ao cérebro e cuspia para dentro de uma garrafa de plástico cortada ao meio onde antes o meu pai guardara o tecido morto das fotografias e a parede do corredor. pessoas desconhecidas a penetrar na caixa de ar das casas antigas com vozes próprias, com pontes próprias através dos dentes. às vezes o crânio a explodir cores secas e uma espécie de sangue a partir a paleta no tapete. o senhorio acabado de morrer. o meu corpo mais pequeno a dobrar as esquinas sucessivas das casas, das camas partidas com homens pequenos abraçados a uma almofada vermelha com vértices de vidro. os olhos dentro de um copo de plástico para diluir as lágrimas que restam a um corpo feito de cinzas. a solidão com arranjos de mármore a definir o espaço físico da morte. os retratos abandonados no chão, nas ruínas de uma casa sem gente que saiba chorar, sem animais que dêem pela falta de uma cama de hospital emprestada para um final feliz.
Posted at 02:09 pm by mortir
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Friday, September 02, 2011 |
os ciganos em volta para que o incêndio subisse o elevador até ao quinto andar mas o desespero do sonho contrafeito a carregar no alarme com as duas mãos, a dilacerar os pulmões numa agonia electrizante. o sorriso indiferente dos vizinhos enquanto a cabeça decepada pelo aço. a poesia debaixo do tapete dos apartamentos e ninguém a precisar dela senão quando alguém se esquece da chave de casa e uma réplica escondida dentro do poema. um aquário de ritmo e silêncio ocasionais. um génio humano capaz de uma chave, mesmo assim, sem saber que a poesia. sim, isso mesmo.
para quê, portanto?
o vidro esverdeado, estilhaçado a plantar o coração de sangue. a explicar a inutilidade a utilidade do meu corpo morto quando a poesia, sem dono, uma perspectiva invisível.
Posted at 03:50 pm by mortir
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aqui, onde ninguém existe, conheço um lugar abandonado com escadas de azoto líquido sem corrimão.
enlouqueci dentro dos vossos olhos antes de aqui chegar. tirei senha na farmácia e deram-me dinheiro para a droga. fiquei contente. depois morri. agora velo o meu corpo interiormente e não vos conto nada porque, mesmo que contasse, fingiam que era só mais um resto de poesia a pingar do nariz.
Posted at 06:44 pm by mortir
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assobia o vidro entre os dentes como se costurasses uma árvore num corpo inerte. cobra os impostos ao amor indefeso, corrói os nós das cordas como se pedras violeta nos olhos que se arrancam lentamente com o anzol às aves incendiárias do momento primário. não escondas a cara. já te viram chorar uma língua húmida pela noite dentro, pelos olhos dentro. descolar a retina seria uma profissão bem remunerada, dizias. mas deus não acreditava. chorava também. deus também chora? não. eventualmente, assobia uma melodia envelhecida e morta, com moscas no regaço, um cão putrefacto nos braços e uma tristeza infinita adornada de corações (somos humanos, todos humanos). mastigamos a violência do ritmo para que na praia reconheçamos o sangue do nosso sexo a explodir por dentro como um prédio feito de papel que começa a arder lentamente mas depois cada vez mais depressa, cada vez melhor como uma nota de rodapé num livro onde as cinzas representem o silêncio. um assobio vítreo na varanda. onde estás? deus não sabe assobiar. eu também não. às vezes é melhor assim. a minha profissão é simples. carrego cavalos cansados nas pálpebras. fecho os olhos com força até esgotar as lágrimas com que se existe. com que se enlouquece. aprisiono assobios em casas de banho públicas onde os velhos oferecem rosas aos maricas. com que direito? não tenho dinheiro para comer e vendo o amor para pagar as prestações do sorriso. este trabalho é uma quimera a bordo de um navio amarrado ao estaleiro como um animal em pânico. avisa-me quando chegares e janta sozinho no cais. assobia alto para toda a cidade ouvir o lamento de um homem violado por deus. foi como se um galáxia o possuí-se de dentro para fora e cuspi-se o desespero contra as valquírias. não chorou nem abriu mais os olhos. desenhou a melancolia no interior das pálpebras e pediu um cão guia que o empurrasse para os escombros. tinha uma máquina de lavar que debitava poemas. centrifugava deus com um assobio mecânico imperfeito e pouco estético para os tempos que correm. para os tempos, os espaços. os becos comprimidos onde o desespero é um anti-depressivo sujeito a receita médica.
Posted at 03:56 pm by mortir
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