mortirAugust 24th 1991 (Age 20) Male Óbidos
telefone alimentado a madeira
Assuntos mecânicos concêntricos adormecem as
memórias, confirmam a melancolia.
Encontraram-no fora da voz, louco de
insígnias. Faltam unhas.
Carne mastigada, estilhaços,
janelas sem ângulos, honestas de
sangue...
O propósito obscuro,
conta-nos, vertebral, o útero
das coisas queimadas amolece das
órbitas.
Sopram por dentro
encaixam mortos nos lugares efémeros.
Acreditam, veementes, nos assuntos
imaculados. Velcro nos olhos ovíparos omnívoros.
Sente-se ferrugem antiga
nos lábios cansados de mortes,
sente-se cromatina no périplo.
E eu, afónico, resto de
tudo, hoje, louco, aqui me
espero de ontem, aqui me
torno a flor de lótus.
Clímax. Sou eu.
E eu, adorno, desembarco nas
humidades.
Fértil chão da morte.
27/X/2008
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Friday, November 11, 2011 |
quero esta corda. este silêncio em que a angústia se enrola no pescoço e me pendura no lugar de um cortinado.
preciso de uma cidade inteira, uma lâmina para dentro do meu peito e, depois, um tumor maligno com que possa conviver para sempre.
preciso de uma cama de madeira fechada com pregos, um armazém vazio com um ringue ao centro e apenas eu contra deus. o eco da solidão a entrar pela caverna de cristo e um gato ferido a morrer aos meus pés. apenas olhos em estilhaços, vidros de uma cidade que decide sucumbir ao vazio. onde quer que estejas plantarás uma flor e enquanto a vires secar supões ter desviado os doces rios que correm dos meus pulsos para dentro da tua boca.
preciso de mim, do que resta dos meus olhos, da vossa boca a arrancar-me os braços para que nunca mais, na ausência, um abraço.
Posted at 09:57 am by mortir
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Friday, September 30, 2011 |
A propósito do silêncio nas avenidas
os troncos das pedras sob a forma de costelas e dentro do mar o absinto preto mal diluído. ainda gatos velhos a incendiar o peito com fósforos vazios na boca. quando era mais novo armazenava corações nas escarpas. deixava-os corroer o céu da boca até chegar ao cérebro e cuspia para dentro de uma garrafa de plástico cortada ao meio onde antes o meu pai guardara o tecido morto das fotografias e a parede do corredor. pessoas desconhecidas a penetrar na caixa de ar das casas antigas com vozes próprias, com pontes próprias através dos dentes. às vezes o crânio a explodir cores secas e uma espécie de sangue a partir a paleta no tapete. o senhorio acabado de morrer. o meu corpo mais pequeno a dobrar as esquinas sucessivas das casas, das camas partidas com homens pequenos abraçados a uma almofada vermelha com vértices de vidro. os olhos dentro de um copo de plástico para diluir as lágrimas que restam a um corpo feito de cinzas. a solidão com arranjos de mármore a definir o espaço físico da morte. os retratos abandonados no chão, nas ruínas de uma casa sem gente que saiba chorar, sem animais que dêem pela falta de uma cama de hospital emprestada para um final feliz.
Posted at 02:09 pm by mortir
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Friday, September 02, 2011 |
os ciganos em volta para que o incêndio subisse o elevador até ao quinto andar mas o desespero do sonho contrafeito a carregar no alarme com as duas mãos, a dilacerar os pulmões numa agonia electrizante. o sorriso indiferente dos vizinhos enquanto a cabeça decepada pelo aço. a poesia debaixo do tapete dos apartamentos e ninguém a precisar dela senão quando alguém se esquece da chave de casa e uma réplica escondida dentro do poema. um aquário de ritmo e silêncio ocasionais. um génio humano capaz de uma chave, mesmo assim, sem saber que a poesia. sim, isso mesmo.
para quê, portanto?
o vidro esverdeado, estilhaçado a plantar o coração de sangue. a explicar a inutilidade a utilidade do meu corpo morto quando a poesia, sem dono, uma perspectiva invisível.
Posted at 03:50 pm by mortir
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aqui, onde ninguém existe, conheço um lugar abandonado com escadas de azoto líquido sem corrimão.
enlouqueci dentro dos vossos olhos antes de aqui chegar. tirei senha na farmácia e deram-me dinheiro para a droga. fiquei contente. depois morri. agora velo o meu corpo interiormente e não vos conto nada porque, mesmo que contasse, fingiam que era só mais um resto de poesia a pingar do nariz.
Posted at 06:44 pm by mortir
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assobia o vidro entre os dentes como se costurasses uma árvore num corpo inerte. cobra os impostos ao amor indefeso, corrói os nós das cordas como se pedras violeta nos olhos que se arrancam lentamente com o anzol às aves incendiárias do momento primário. não escondas a cara. já te viram chorar uma língua húmida pela noite dentro, pelos olhos dentro. descolar a retina seria uma profissão bem remunerada, dizias. mas deus não acreditava. chorava também. deus também chora? não. eventualmente, assobia uma melodia envelhecida e morta, com moscas no regaço, um cão putrefacto nos braços e uma tristeza infinita adornada de corações (somos humanos, todos humanos). mastigamos a violência do ritmo para que na praia reconheçamos o sangue do nosso sexo a explodir por dentro como um prédio feito de papel que começa a arder lentamente mas depois cada vez mais depressa, cada vez melhor como uma nota de rodapé num livro onde as cinzas representem o silêncio. um assobio vítreo na varanda. onde estás? deus não sabe assobiar. eu também não. às vezes é melhor assim. a minha profissão é simples. carrego cavalos cansados nas pálpebras. fecho os olhos com força até esgotar as lágrimas com que se existe. com que se enlouquece. aprisiono assobios em casas de banho públicas onde os velhos oferecem rosas aos maricas. com que direito? não tenho dinheiro para comer e vendo o amor para pagar as prestações do sorriso. este trabalho é uma quimera a bordo de um navio amarrado ao estaleiro como um animal em pânico. avisa-me quando chegares e janta sozinho no cais. assobia alto para toda a cidade ouvir o lamento de um homem violado por deus. foi como se um galáxia o possuí-se de dentro para fora e cuspi-se o desespero contra as valquírias. não chorou nem abriu mais os olhos. desenhou a melancolia no interior das pálpebras e pediu um cão guia que o empurrasse para os escombros. tinha uma máquina de lavar que debitava poemas. centrifugava deus com um assobio mecânico imperfeito e pouco estético para os tempos que correm. para os tempos, os espaços. os becos comprimidos onde o desespero é um anti-depressivo sujeito a receita médica.
Posted at 03:56 pm by mortir
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Cão guia ou Afogamento precoce
Mesmo sem lhes afagar o pêlo ou beijar a fronte com a bravia ternura do campo os cães morriam às mãos dos pescadores afogados e plantados segundo ordens cronológicas irregulares. Explicava-se o sacrifício no silêncio de uma escuridão que perdia as crianças em incêndios de sal e vozes enlouquecidas guardadas ao longo dos anos dentro de pianos de cauda feitos em baixo relevo na sala de jantar de um coleccionador de corvos marinhos. Enquanto a esventrável agonia de um animal lhes servia de propósito para a compaixão um rio de sangue iluminava a profundidade do solo primário ilustrando o caminho mais longo para uma morte breve e desatenta desenhada de homens vermelhos e mulheres escurecidas sentados num café de mármore onde se podem pisar grãos de café estragado e plantar a melancolia ao lado dos cedros.
Quando vou ao cemitério ainda carrego um regador vazio para recolher as sombras dos homens sentados sobre a cabeça e planto solidão na calçada que um homem de princípios há-de pulverizar asfixiado de si próprio.
Posted at 02:02 pm by mortir
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Tuesday, January 25, 2011 |
Temos o poema numa mão (a esquerda) e na outra plantamos sacos de plástico com árvores desenhadas de ambos os lados e se brotam florestas mecânicas do romantismo secular dos lábios porque não sobram mais unhas para além das cravadas na carne espessa do poeta cuja morte acaba onde o poema reside em precipício?
Posted at 05:14 pm by mortir
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As mãos vazias e entre elas a cabeça de um unicórnio decepada na urgência do metrónomo. "É o pessimismo das estrelas" - dizias - e eu apontava para o silêncio com sangue nos pulsos amputados enquanto no litoral ainda restavam perguntas quiméricas e hienas esfoladas com cascos de centauro habitados de coral cinzento centrifugado. O coração sob a forma de uma medusa pulsante com tentáculos circundando o jardim efémero da fisicidade e duas dentadas que servirão de joelhos, se assim puder ser. É a palidez da noite e o psiquiatra marítimo que na ciclicidade das ondas se esquece da embarcação e produz escamas com sumo de laranja natural e carvalhos centenários com escorbuto.
"É o incêndio das vozes, a explicação intemporal do arquétipo ou o deus solitário na varanda do 3º andar a fumar o cigarro da criação por falta de sexo e afins" - dirias.
Posted at 02:00 pm by mortir
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Wednesday, January 12, 2011 |
Dá-me a mão porque lá fora está frio e pode ser que os cães ladrem a amplitude das sombras. Nos dias assim costumamos plantar espectros na lareira e acender luzes de natal com farinha de trigo fora do prazo de validade para iluminar o vento solar que se movimenta debaixo das árvores. Sabemos que os pescadores têm raízes humedecidas debaixo dos pés e é por isso que vão para o mar e têm barcos de madeira sob o seu comando mas não contamos a ninguém porque nos pediram segredo com aquele olhar de miséria suburbana que comovia as larvas nos funerais mais bonitos e, portanto, com menos flores, menos pessoas, sem caixão nem cânticos. Só um buraco na terra e mortos, ou quase, atirados segundo a lei da gravitação Universal de Newton que, sem saber, explicou porque é que caímos de joelhos de olhar vazio e medusas nos pulmões quando esgotamos o amor e só nos resta um último poema amarrotado na mão esquerda e uma mola de roupa amarela semi-carbonizada presa ao indicador da direita.
Posted at 09:42 am by mortir
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Saturday, January 08, 2011 |
Raw Blues is a goddess fingerprint
tu sabes que as mãos acabam e derretem e depois as unhas mas primeiro os olhos têm sinceridade e fala-se de bules com água fria que serve para fazer chá azul com electricidade estática no fundo como se fosse açúcar mas não é porque na verdade é muito mais do que aquilo que as pessoas p-e-s-s-o-a-s, [pés sob o anatómico símio ?], pensam que saem à segunda-feira para trabalhar e chegam numa sexta feira qualquer cansados e, às vezes, até mortos mas com mãos no ombro, como as pessoas que morrem bem, porque morrer bem é o objectivo das pessoas boas e correctas que trabalham uma semana inteira e estão cansados demais para não trabalhar na semana seguinte sem saber que a vida é cíclica e se a enchermos de ciclos podemos ficar doentes e morrer com mãos no ombro que depois derretem e acabam depois de nós, talvez até melhor, porque pertenciam a uma pessoa menos cíclica e menos boa que sorria debaixo de um comboio preto e vermelho, como nas colecções dos velhotes que se julgam imortais e enchem vitrinas com corações de crianças que depois pretendem trocar com os seus como pilhas que se apertam nas mãos e provocam uma explosão etérea de vida com faíscas multi-colores e irracionais. Mas as mãos acabam e com elas o Universo, eu diria. Tudo isso só, talvez, porque as pessoas saem para o trabalho sem pensar, ou interrompem o pensamento porque é tarde e quando é tarde tem que se ter um emprego, quem sabe como coveiro, [a eterna esperança de um dia chegar ao centro da terra] numa Terra qualquer em que as minhocas e as larvas são satélites naturais reflectindo a luz de um poema apagado ao fim do dia.
Posted at 06:39 pm by mortir
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